sábado, 26 de janeiro de 2008

II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa

As aranhiças foram em excreção a Leiria para o II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa organizado pelo IPL.
Tivemos o prazer de partilhar esta excreção com um amigo, também ele tecelador da coisa da poesia, para podermos trocar ideias, sermos mais no caso da experiência se revelar avassaladora e para podermos agora estraçalhar a várias mãos a dita experiência.
Estávamos muito entusiasmadas/o com o painel intitulado Na vanguarda da escrita - ciberliteratura mas logo se nos resfriaram os ânimos. Não queremos dizer mal só por dizer mal (o que às vezes não deixa de ser giro) até porque a iniciativa do IPL é de louvar, num país que tanto precisa de espaços comunitários de debate e troca de ideias, mas temos de tecer algo sobre isto, à laia de reflexão. Paulo Kellerman, Luis Costa Pires e Marta Gautier eram os convidados, e Pedro Barbosa o moderador, que abriu o dito painel com «AlletSator». «AlletSator» é uma obra de ambiente hipermédia substanciado por textos (lidos por diferentes vozes ao longo da obra) gerados automaticamente com auxílio de computador, e foi criado por Barbosa e Carvalheiro.
E depois deste momento vanguardista caímos. Bem para dentro do umbigo dos convidados do painel. E verificámos que têm umbigos perfeitamente conservadores, perfeitamente desconhecedores daquilo para que foram convidados a falar sobre, perfeitamente qualquer-coisa-que-tem-um-blog-e-o-resto-é-nevoeiro. E Pedro Barbosa a desunhar-se diplomaticamente para tentar corrigir dissimular evitar inverter quebrar os “mitos culturais”, e paliar a cyber ignorância e cyber-LATA dos convidados. Ainda fomos presenteado/as com o argumento “a la” fotonovela simplesmente Maria, de que essa coisa de recorrer às técnicas de texto assistida por computador pode ser perigoso (!!!), e que tira a humanidade à literatura, pois desaparece o lugar da emoção no processo de escrita, leia-se escritor/a-indivíduo-all-mighty-iluminado/a a.k.a o/a-grande-artista-sagrado/a. E chegaríamos a um ponto “a la” apocalipse final em que não se conseguiria mais “domar” a máquina e ela produziria fantásticos textos desenfreadamente! … E ainda tivemos de ouvir num outro registo de resistência à, e desconhecimento de, cyberliteratura, Marta Gautier a reflectir sobre a sua profissão, a de psicóloga, que exige tanto de si (sic), e de como os áudio-livros até são bem pensados (refere que é uma experiência muito bonita e gratificante ouvir ler livros no meio do trânsito), e que os livros dela têm areia, mas que não se preocupem que o virtual não vai substituir o papel… Bem, de resto, como compreenderão, estes são os argumentos (?se é que houve “argumentos”) de quem não conhece minimamente o meio da ciberliteratura/ poesia digital ou hipermédia.
Foi pena pois foi. “Tivessem eles, pelo menos, lido alguma coisa sobre o assunto” (como referiu Rui Zink) e talvez, muito talvez, pudesse a coisa ter sido sustentada por mais alguém que não o magnífico Pedro Barbosa.

1-2-3-4-5aranhiças e bruno m. santos

9 comentários:

Miguel Sena disse...

hmmmmmmmmm

não deites fora o bebé com a água suja.

Miguel Sena disse...

Não é uma questão de ser perigosa, a ciberliteratura. E ao longo de todo este texto referir-me-ei a "ciberliteratura" como qualquer tipo de literatura ou de quasi-literatura criada exclusivamente por computador, a partir de algoritmos para gerar (uma quantidade hipoteticamente infinita de) poemas-- por isso não entendo, unicamente para o propósito deste post, visto que estou a comentar uma situação "em que não se conseguiria mais “domar” a máquina e ela produziria fantásticos textos desenfreadamente", a utilização de recursos multimédia ou electrónicos para complementar, dispor, redispor, modificar, etc, textos já existentes: hipermédia ou coisas que tais.

A mim a ciberliteratura soa-me bastante ao Dada do século XXI-- muito giro, muito chocante, muito ai-meu-deus-is-this-art, mas na realidade não acredito que haja muito de interessante ou sequer trabalhável nela-- as consequências dela penso que são muito mais prováveis serem as mesmas que teve o movimento Dada, ou seja, abertura e revelação de caminhos para os vindouros. O foco será nas suas consequências e não em si mesma.

1) When all is said and done, não me parece que seja muito mais que uma curiosidade girita. Claro que pode ser argumentado que toda a poesia também não passa duma curiosidade. Mas para fazer o argumento avançar, vou dizer que acredito que a poesia é vastamente mais que uma curiosidade. Pois a poesia é mais do que um trabalho linguístico derivado do mundo passível de ser reconhecido (pois não é difícil conjurar um algoritmo que recolhesse informação a partir de, imagine-se, websites de notícias), ela pode também exercer quantas funções (diga-se política, religiosa, auto-destructiva, crítica, etc), ou voluntariamente nenhuma, quantas o poeta quiser que ela exerça-- ou seja, é todo um exercício subconsciente de linguagem. Um computador, por definição incapaz de pensar subconscientemente, não tem essa capacidade, não tem essa vertente.

2) (Tenta) Recentrar a poesia fora do humano, juntamente com as suas in/subconsciências, preocupações de todos os tipos, e especialmente criadoras. Certo, gerar poesia por computador pode resultar em versos engraçados, curiosos, ou até "combinações inesperadas de palavras" (deuses, se eu ouvia outra vez essas palavras na apresentação do outro dia juro que morria), mas a questão é que não é assim lá muito diferente de ver um texto jornalístico e dizer que é um poema. Até esse mesmo texto ser passado e transformado em poema, não é poesia: caso contrário tudo seria poesia. Da mesma maneira, até que um texto electronicamente gerado seja poesia, tem de ser transformado em poema. Nem que seja pela dignissíssima arte do copy/paste-- mas sinceramente, a Fonte já é de 1917, se queremos ser vanguardistas tentemos sê-lo com menos de 90 anos de atraso. O meu argumento é que nem tudo é poesia: nuvens não são poesia, listas de compras não são poesia, conversas de café não são poesia. Não vou ao ponto de dizer que ciberpoesia não é poesia, mas acho que genericamente é a celebração e o apoderamento supremo da máquina. Claro que o podemos fazer isso, mas não ganhamos nada com isso. Nem ganhamos poesia, nem ganhamos noções de estética. Quando muito ganhamos problematizações poéticas, mas, pelo menos para mim, essas são não só relativamente facilmente ultrapassáveis mas também nuclearmente fracas: visto que dificilmente consigo considerar poesia algo engendrado fora do Ser Humano. Até o experimentalismo, até o surreal, até o aleatório mais brutal, chocante e estranho nasce do Humano. Tudo isto sem retirar qualquer suposto "prazer estético". Eu gosto de paisagens naturais. Eu tenho no meu disco rígido sons do espaço (gerados por planetas e com as frequências minimizadas até serem capazes de nos ser audíveis). Eu acho todo o ambiente de jogos de futebol repugnante. É toda a minha noção de estética que entra em jogo, fora da Poesia. Da mesma maneira, eu costumava frequentemente visitar este site http://www.everypoet.com/haiku/default.htm para Haiku instantâneos. Prazer estético potencialmente derivado de ciberliteratura não está directamente relacionado de todo com o seu valor ou ausência deste poético.

Insurges-te contra ser dito que poesia digital "tira a humanidade à literatura, pois desaparece o lugar da emoção no processo de escrita". Sobre essa frase eu tenho a dizer duas coisas: 1) Concordo. 2) Estás a falar tanto ignorantemente como reductivamente. Ambas as constatações estão não só "logicamente correctas" como são, no meu ponto de vista que explicarei, louváveis: tira a humanidade à literatura-- claro que tira: então havendo um poema que é encaixado por um computador, desenvolvido por uma máquina, então será sequer possível acreditar que haja lá algo de humano a não ser a linguagem com que é criado, sendo mesmo isso discutível, visto que o computador não é guiado pela linguagem, não é susceptível à sua vivência, sendo regido nada mais nada menos do que por um algoritmo? E continuando-- essa "humanidade" (seja lá o que isso for, embora certamente consigamos assegurar um certo consenso, humanitas, característica do que é humano, versus o que não é humano, como um animal ou um objecto), perde-se pois não há poema algum criado por um ser humano que não seja repleto de emoção. Como é super mais que óbvio, emoção não implica "esta dor que me atormenta o coração / ai, e as feridas que criou esta paixão". Emoção é um elemento atómico de todo o comportamento humano. Pretender fazer seja o que fôr sem intervenção da emoção, que neste sentido está a ser usado como "força irracional com peso de influência", não só é iludido como impossível. E a ciberliteratura é algo que choca frontalmente com isso, facto inegável: um computador não sente.

Termino a exprimir a minha opinião que o conceito de "vanguardismo" deve ser practicado com uma poética a suportá-lo, que não deve ser um fim mas um meio para algo, e que ser vanguardista para ser vanguardista não tem resultado. Claro que quem o quiser fazer tem plena liberdade de o fazer. A extensão dos limites é louvabilíssima, certamente. Mas arriscamo-nos a começar a travar novos caminhos a dar-nos conta que temos the fat Mississippi ahead of us / and no way to cross it: quando nos expandimos devemos ter umas noções mínimas de onde queremos ir.

Miguel

Luís Costa Pires disse...

Boa tarde.

Queria antes de mais agradecer a referência, ainda que duvidosa, no vosso blogue. E queria também tecer poucos e breves comentários, ainda que saiba que não valerão de nada. Mas como sou um optimista inveterado, aqui vão:

Parece-me que não perceberam bem o intuito das intervenções, pelo menos da minha. Eu não falei especificamente dos perigos daquela "tecnologia". Falei dos perigos da dependência da tecnologia em geral. Estava a extrapolar um tema para outro maior, já que me parece que cada vez mais as pessoas se tornam dependentes de mecanismos externos e ficam cada vez mais incapazes de fazer por elas próprias qualquer simples tarefa.

E, como é óbvio, não foi uma questão de “não ter estudado o assunto". Essa é uma afirmação idiota e o próprio Rui Zink, no final do encontro, explicou-me que era uma provocação. A questão era haver ou não alguma coisa de interesse a dizer sobre o tema. Eu, pessoalmente, porque é uma área que só me interessa por curiosidade, não tinha nada para acrescentar ao que o Pedro Barbosa, especialista da área, dissesse.

Aliás, parece-me que o interesse de um debate é colocar questões em discussão. Presumo que esse era o interesse da mesa. Se a ideia era fazer uma apologia da “ciberliteratura” então certamente deveriam ter convidado mais dois programadores e não dois autores que nunca se interessaram pelo assunto (não falo da Marta, de facto, porque ela praticamente não interviu) e que preferem passar pelo trabalho de escrever os seus próprios livros em vez de mandar um programa baralhar as palavras. Mas incomoda-vos o confronto de ideias? É pena, porque a mim não.

Posto isto, como os homens têm habilidade de pensar e sentir as coisas, coisas que as máquinas não conseguem fazer, e perante o cenário do debate, olhei para um parte e falei de um todo. Ou seja, saí do limitado número de palavras que podiam ser utilizadas e extrapolar o pensamento para outras áreas, o que ofendeu os cérebros computorizados presentes.

Parece-me também que há gente demais a ficar preocupada quando se fala em necessidade de inspiração ou de criatividade no acto artístico. Porquê? Por acaso a arte não necessita desses factores? Ou acham que a arte é um processo matemático? Se sim, está explicado, mas confesso que ainda não percebi bem a razão da irritação. Será que é uma reacção à incapacidade que muitas pessoas já têm de pensar por elas próprias e a necessidade de verem na arte a mera execução de uma técnica?

Aqui não se trata do escritor ser um ser inspirado e iluminado. Trata-se de ser um indivíduo que se recusa a ver as coisas de forma matemática e que sente e pensa as coisas.

Mas, independentemente da ciberliteratura ter piada enquanto "jogo" ou experiência, e, provavelmente vir um dia a registar grandes mais-valias para a sociedade, seja no campo educacional, no campo da inteligência artificial, etc, desculpem-me, mas o facto de ser considerada literatura parece-me exagerado. Foi isso que defendi, como também explicou e muito bem o Miguel Sena que escreveu um comentário antes de mim.

Quanto a outras considerações feitas no post, vou abster-me porque tento apenas comentar aquilo que é minimamente construtivo.

Cumprimentos

bruno m. santos disse...

Miguel,

o que se passa aqui é algo significativamente diferente daquilo que constatas. inadvertidamente, parece-me a mim que assim o fazes, dás ao teu pensamento e ao ter discurso o pressuposto de que a arte assistida ou gerada em computador não é humana, quando no fundo toda a base será sempre humana. mais que nao seja porque o computador é uma invenção humana, mais que não seja porque (factor mais importante) o poema que dali advier será sempre humano. não interessa se a sua mensagem vem codificada em algoritmo, em linguagem ou num outro qualquer sistema de códigos (porque é que, sendo a linguagem um código, é considerada mais natural que outros códigos existentes?). mais: o texto gerado por computador (que parece ser o que gera mais polémica, para além das também agudas críticas às disciplinas de escrita animada por computador e poesia hipermédia) será sempre mas sempre um texto humano naquela que é talvez a fase mais importante do processo literário: a leitura.

o poema animado ergue-se, assim, para mim, como uma alternativa ao poema linear, uma construção que mexe verdadeiramente com a palavra e com a imagem. algo que possibilita criar sentidos outros a partir de construções distintas de uma poética linear.
por sua vez, o poema hipermédia, que tem, a meu ver, principal valor pela sua possibilidade de interactividade, permite ao leitor intervir no processo de construção do poema (não o faria já o leitor, de certo modo, no poema linear, ao fazer uma leitura subjectiva do enunciado poético?- subjectiva como todas as leituras).

não percebo por isso certos argumentos que são utilizados quando se debate esta questão. quer dizer, na verdade até os percebo, mas, simplesmente, não os aceito para minha opinião. e porquê? porque a questão é muito mais complexa que a tarefa de estar numa mesa a dar a sua opinião sem estar bem por dentro do tema, compreende o ponto de vista, Luís Costa Pires?, muito mais complexo que postar este texto aqui (que, aproveito para dizer, não é de todo ciberliteratura. é mais um comentário num blog.)

Miguel Monteiro disse...

bruno,

o facto de ser gerado com linguagem e passível de ser lido não confere a característica de poesia.

algo que não é gerado e condicionado pela vivência da linguagem e "vivência por" da linguagem não pode ser considerado linguagem, muito menos poesia. linguagem é muito mais que soma das partes, pelo menos no que nos interessa falantes sobre poesia. nome + verbo + complemento.directo = frase =< poesia. linguagem, e poesia portanto, é muito mais que pegar nas palavras e associá-las gramaticalmente: há a condicionante emotiva. partindo do ponto que um computador consegue unicamente associá-las gramaticalmente, e que não consegue fazer essa condicionante interveniente, não consigo considerar textos por ele gerados poesia.

tudo o que é gerado com palavras é passível de ser lido ergo passível de ser poesia. mas nem tudo é poesia, certamente podemos concordar isso.

admiro muitíssimo poesia animada, hipermédia, e todos os processos de fornecer múltiplas dimensionalidades a um poema, portanto nisso não discordo nem vou falar disso.

miguel

bruno m. santos disse...

Miguel,

aqui, no teu último post, estás a ir de novo por onde ias no primeiro, nomeadamente quando, no primeiro, dizes que "Pretender fazer seja o que fôr sem intervenção da emoção, que neste sentido está a ser usado como "força irracional com peso de influência", não só é iludido como impossível. E a ciberliteratura é algo que choca frontalmente com isso, facto inegável: um computador não sente."

sei que tentas defender a tua ideia. mas eu deixo aqui uma coisa para pensares um pouco sobre ela (tendo em conta o argumento dos sentimentos de que falas): um computador, de facto, não sente. mas pode fingir que sente muito bem. o que se passa com o/a poeta quando escreve? sentiu obrigatoriamente? é sequer correcto dizer que sentiu, se quisermos até falar de um ponto de vista de crítica literária (não sei porque me deu para aqui!)? sei que a citação está batidíssima, mas "o poeta é um fingidor (...) SENTIR?, SINTA QUEM LÊ" (que é como quem diz que cada um sente à sua maneira, cada um que lê e quem o escreveu. se quem o escreveu não sentiu, terá isso alguma importância para o possível sentimento de quem lê?)

Miguel Monteiro disse...

bruno,

que chega a fingir que é dor / ««a dor que deveras sente»»

eu já comentei em relação a isso. o facto de ser causado uma reacção no leitor não significa nada. já que estamos numa de expressões batidas, em «sinto-me pequeno quando me deparo com a imensidão do universo», right. não quer dizer que o universo seja poesia.

eu posso "sentir" quando deparado com um poema, assim como posso "sentir" quando deparado com muitas outras coisas. as coisas não são mutuamente exclusivas.

miguel

catarina costa disse...

"um computador, de facto, não sente. mas pode fingir que sente muito bem. o que se passa com o/a poeta quando escreve? sentiu obrigatoriamente?"

Sente obrigatoriamente, quanto a isso não há volta a dar. Enquanto pessoas pensantes, sentimos. O pensamento, seja ele qual for, é indissociável da emoção (ver os estudos neurológicos de António Damásio...)
Aliás, a famosa escrita automática, ou aleatória, não é, realmente, aleatória... as combinações entre as palavras têm como pano de fundo as associações em constante fluxo do inconsciente humano. A aleatoriedade pura não é passível de sair de uma mente humana, o que sai é pelo contrário a matéria em bruto da própria mente. Por isso quando falamos de escrita automática/aleatória é algo radicalmente diferente de umas combinações frásicas automáticas geradas por uma máquina.
E claro que o poeta é um fingidor, mas acontece que o fingimento vem sempre acompanhado de alguma emoção: o prazer do jogo, a dor do disfarce, a necessidade de uma defesa, a angústia da despersonalização, o vazio...

catarina costa disse...

Ah é verdade
este blog está muito engraçado, continuem e saudações poéticas