Tivemos o prazer de partilhar esta excreção com um amigo, também ele tecelador da coisa da poesia, para podermos trocar ideias, sermos mais no caso da experiência se revelar avassaladora e para podermos agora estraçalhar a várias mãos a dita experiência.
Estávamos muito entusiasmadas/o com o painel intitulado
Na vanguarda da escrita - ciberliteratura mas logo se nos resfriaram os ânimos. Não queremos dizer mal só por dizer mal (o que às vezes não deixa de ser giro) até porque a iniciativa do IPL é de louvar, num país que tanto precisa de espaços comunitários de debate e troca de ideias, mas temos de tecer algo sobre isto, à laia de reflexão. Paulo Kellerman, Luis Costa Pires e Marta Gautier eram os convidados, e Pedro Barbosa o moderador, que abriu o dito painel com «
AlletSator». «AlletSator» é uma obra de ambiente hipermédia substanciado por textos (lidos por diferentes vozes ao longo da obra) gerados automaticamente com auxílio de computador, e foi criado por Barbosa e Carvalheiro.
E depois deste momento vanguardista caímos. Bem para dentro do umbigo dos convidados do painel. E verificámos que têm umbigos perfeitamente conservadores, perfeitamente desconhecedores daquilo para que foram convidados a falar sobre, perfeitamente qualquer-coisa-que-tem-um-blog-e-o-resto-é-nevoeiro. E Pedro Barbosa a desunhar-se diplomaticamente para tentar corrigir dissimular evitar inverter quebrar os “mitos culturais”, e paliar a cyber ignorância e cyber-LATA dos convidados. Ainda fomos presenteado/as com o argumento “a la” fotonovela simplesmente Maria, de que essa coisa de recorrer às técnicas de texto assistida por computador pode ser perigoso (!!!), e que tira a humanidade à literatura, pois desaparece o lugar da emoção no processo de escrita, leia-se escritor/a-indivíduo-all-mighty-iluminado/a a.k.a o/a-grande-artista-sagrado/a. E chegaríamos a um ponto “a la” apocalipse final em que não se conseguiria mais “domar” a máquina e ela produziria fantásticos textos desenfreadamente! … E ainda tivemos de ouvir num outro registo de resistência à, e desconhecimento de, cyberliteratura, Marta Gautier a reflectir sobre a sua profissão, a de psicóloga, que exige tanto de si (sic), e de como os áudio-livros até são bem pensados (refere que é uma experiência muito bonita e gratificante ouvir ler livros no meio do trânsito), e que os livros dela têm areia, mas que não se preocupem que o virtual não vai substituir o papel… Bem, de resto, como compreenderão, estes são os argumentos (?se é que houve “argumentos”) de quem não conhece minimamente o meio da ciberliteratura/ poesia digital ou hipermédia.
Foi pena pois foi. “Tivessem eles, pelo menos, lido alguma coisa sobre o assunto” (como referiu Rui Zink) e talvez, muito talvez, pudesse a coisa ter sido sustentada por mais alguém que não o magnífico Pedro Barbosa.
1-2-3-4-5aranhiças e bruno m. santos